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CORPO E ESPÍRITO: DUALIDADE NA UNIDADE.


    A evolução corresponde a um conceito de libertação dos limites que sufocam, dos liames que estrangulam, e a um conceito de expansão que, do nível físico ao dinâmico e ao conceptual, é cada vez mais amplo. (UBALDI, p.96)


     A discussão em torno da dicotomia mente/corpo sempre foi tema relevante entre pensadores de várias épocas da humanidade. Desde a Antiguidade Clássica, particularmente ressaltando-se a figura de Platão (Grécia - séc. V a.C), que tal preocupação ocupou a atenção dos filósofos, pois estes eram os responsáveis para responder sobre todas as questões que incomodavam a vida dos cidadãos da pólis.
     Platão já apresentava a tese da dupla natureza humana refletida na ordem das coisas do mundo visível. Para ele, havia o mundo das idéias, mundo real, da vida do espírito, mundo perfeito, original; e o mundo das formas que, em relação ao mundo primordial, é a sombra daquele, representado pelo mundo material tangível, mundo distorcido que seria apenas uma cópia do mundo original. Mesmo diante dessa postura filosófica de Platão, o corpo sempre desfrutou de prestígio no mundo grego. Um bom exemplo é o culto à beleza através das artes e com seu representante divino _ deus mitológico_ Apolo, como também com a criação dos jogos Olímpicos que eram a manifestação festiva da beleza corporal através da saúde, da força e na superação dos limites humanos.
     O esplendor da cultura greco-latina foi abafada pela substituição de uma visão antropocêntrica, característica do mundo antigo clássico pela visão teocêntrica do período medieval dentro do processo de sucessão histórica. Tal mudança acarretou severas alterações quanto à concepção do corpo e conseqüentemente do espírito, pois, nesse período, a noção de pecado original ganha dimensão diminuindo o valor que o corpo desfrutava culturalmente antes, já que este carrega consigo os pecados da carne, conforme assinala Mary del Priore
    "A história social das atitudes frente ao corpo, no Ocidente, passa pela análise dos elementos duais do pensamento cristão sobre o corpo. Corpo abominável invólucro da alma, peso e culpa; corpo trespassado do Cristo na cruz, pivô da fé e da salvação, carne da encarnação" (PRIORE, p.15).

      A salvação espiritual em detrimento do corpo constitui-se como a ordem do dia para o mundo medievo, impedindo avanços no que diz respeito ao estudo do corpo como as dissecações de cadáveres, por exemplo.
   Entre os séculos XII e XVIII, segundo o historiador Jean Delumeau, a mulher foi estigmatizada como a representação do mal sobre a Terra. O corpo feminino, e conseqüentemente a mulher, passou a ser visto como um conjunto de imperfeições quer do ponto de vista moral quer fisiológico, transformando-se em algo maligno e fonte do pecado, pois "o copo feminino era considerado como fundamentalmente impuro. Pólo negativo, portanto, na dicotomia com que era interpretado" (DELUMEAU in. PRIORE, p.17).
     Destarte essas concepções que se perpetuaram desde a Alta Idade Média, a Idade Moderna (século XVI) inaugura um novo patamar de discussões em torno das concepções de corpo e espírito. Sobressai-se a figura de René Descartes, filósofo francês, autor da assertiva conhecida cogito, ergo sum, penso, logo existo, na qual está embutida a idéia de uma essência primeira que antecede o corpo, ou seja, o pensamento. O ato de pensar, segundo Descartes, sendo anterior a própria existência corporal, o corpo passa, então, a ser uma extensão do pensamento. É o que se configura no chamado dualismo psicofísico: a dupla natureza humana. De um lado a essência pensante (natureza espiritual - res cogitans -espírito) e do outro a substância extensa (natureza material - res extensa- o corpo). Descarte também se utiliza desse seu método filosófico (dúvida metódica) para afirmar a idéia de Deus, deduzindo que se Deus é perfeito, perfeito também é o seu pensamento, logo uma essência perfeita.
    Outro campo filosófico relevante para o debate mente/corpo mais recente é o positivismo, corrente filosófica nascida pós revolução industrial do século XVIII, tendo como precursor o francês Augusto Comte (séc. XIX), que ressalta o caráter científico para o conhecimento das coisas. É daí que o espiritismo herdará sua linha teórica de observação dos fenômenos, seja no campo filosófico seja no campo científico, já que Allan Kardec buscou, primordialmente, no uso da razão e no caráter positivo (certeza, realidade), sistematizar os princípios básicos da Doutrina Espírita. Nesse contexto, o espiritismo trará uma grande contribuição para o debate a respeito do corpo e do espírito, pois, a partir da observação e análise de caráter positivo, apresenta o espírito como uma realidade factual, um ser pensante que age, autônomo e individual, desvelando, assim, as percepções pessoais e subjetivas que o envolviam. Aparentemente, apresenta uma dualidade concreta corpo físico de um lado e o espírito de outro; mas não é assim. O espírito, segundo a doutrina, não prescinde do corpo para evoluir e para constituir-se, enquanto personalidade, pois é pela vivência e pelas experiências no mundo que as nossas percepções vão sendo formadas e alteradas. O espírito para habitar o corpo humano de hoje, por exemplo, passou por várias experiências corporais, acompanhando os milhões de anos de evolução do primeiro coacervado até o homo sapiens.
    Ora, segundo o autor espiritual André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos, psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira, o corpo humano foi desenvolvido pela assessoria dos Benfeitores Espirituais, acompanhado pela evolução do psiquismo espiritual, como afirma no cap. XI: "a evolução morfológica prosseguiu, emparelhando-se com a evolução moral". André Luiz também, nessa mesma obra, adverte sobre o nascimento da responsabilidade que advém da vida em sociedade a partir da evolução o princípio inteligente nas experiências do campo material. Nessa perspectiva, observa-se que o Espiritismo apresenta uma visão e uma dialética do homem a partir de sua natureza aparentemente dicotômica, pois, segundo a doutrina, espírito e matéria fazem parte de uma mesma unidade primordial que é Deus e que ambos se complementam no transformismo evolutivo. Em A Grande Síntese, o prof. Pietro Ubaldi, no cap. XXIX O UNIVERSO COMO ORGANISMO, MOVIMENTO E PRINCÍPIO, apresenta como essas diversidades são dispostas e como se convergem à unidade desde as micro-unidades do campo material até o elemento espiritual num dinamismo contínuo.
    "como a evolução é palingenesia (palingenesia = palin - novo; genesis - nascimento), que leva do simples ao complexo, do indistinto ao distinto, e multiplica os tipos que levaria à pulverização de tudo, se essa força de coesão não reorganizasse o diferenciado em unidade cada vez maiores". (UBALDI, p.94)
   
Adiante , Ubaldi, relaciona esse transformismo às questões de ordem social , salintando a complexidade que envolve esse movimento de elevação.
"Essa possibilidade de estabelecer contatos e ligações entre os mais distantes fenômenos, que é possível por causa da universal unidade de princípio, permitir-nos-á mais tarde reconstruir uma ciência jurídico-social em bases biológicas" (UBALDI, p.95).
     
Logo, apenas numa perspectiva dinâmica do processo evolutivo que envolve as relações sociais, históricas, biológicas, psicológicas, etc do homem sem perder sua essência espiritual, integrante do universal transformismo (vir-a-ser), é que se pode ter uma idéia mais clara da grande rede de inter-relações que envolve a trajetória de elevação do psiquismo espiritual , bem como de tudo que o cerca.

REFERÊNCIAS:
LUIZ, A. [1958]. (1999). Evolução em Dois Mundos. [psicografado por] Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.
ARANHA, M.L. de A.; MARTINS, M.H. P.(1986). Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna.
CHAUÍ, Marilena.(1998). Convite à Filosofia. 10a. ed. São Paulo: Ática.

KARDEC, Allan. (1944). O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

______________. (1944). O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

UBALDI, Pietro. (1988). A Grande Síntese. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi


AUTORA

* Suani de Almeida Vasconcelos
Licenciada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS);
Pós-graduada Latu senso em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS);
Pós-graduanda Strictu senso em Lingüística Aplicada (Análise do Discurso) pela Universidade Federal da Bahia (UFBA);
Vice-presidente do Centro Espírita Jesus de Nazaré, Feira de Santana, Ba.