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CONSIDERAÇÕES SOBRE A EVOLUÇAO DA ÉTICA

     Um dos erros lamentáveis do Criador: Satã, depois de promovido a categoria de Arcanjo, passou a ser um contraditor insaciável e, por essa razão, acabou sendo, finalmente, expulso do paraíso. Na metade da descida, parou, raciocinou um pouco e voltou atrás: "Há um favor que gostaria de pedir", ele disse: "Diga lá", respondeu o Criador. "Fiquei sabendo que o HOMEM será criado; ele precisará, portanto, de leis". "O quê, infeliz? Você, seu inimigo declarado, destinado a odiar a alma do homem desde os primórdios da eternidade, pretende fazer as suas leis?" "Perdão, a única coisa que peço é que eles mesmos as façam", retrucou o diabo. E assim se fez. (BIERCE, Ambrose. Dicionário do Diabo: 1999, p.212-213)
   
Por etimologia, ética vem do grego ethos que quer dizer caráter. De maneira geral, ética não se distingue da moral, mas, no campo dos estudos filosóficos, apresenta distinção conceitual, pois a moral estaria ligada à vertente kantiana, do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), que preconiza aspectos mais de ordem prática como o dever e a obrigação; e a ética estaria ligaria à vertente aristotélica, ou seja, ao pensamento do estagirita Aristóteles (384-322 a.C), e que se volta ao campo do raciocínio prático (baseada na noção de virtude - aretê).
Podemos afirmar que a ética nasce na Grécia Antiga (séc. V a.C), tendo como seu precursor Sócrates o qual percorria as ruas de Atenas inquirindo os jovens atenienses sobre determinados valores sociais: o que é a coragem? O que é a justiça? Os jovens respondiam que eram virtudes. Então, ele retrucava: o que são, então, virtudes? Enfim, a cada resposta, sobre as regras sociais que viviam, pondo em xeque as normas instituídas. Essa metodologia utilizada por Sócrates chama-se maiêutica (greg. parto), ou seja, fazia-se o parto de idéias.Assim, "as indagações socráticas inauguram a ética ou filosofia moral, porque definem o campo no qual valores e obrigações morais podem ser estabelecidos" (CHAUÍ, p.341).
     Sócrates define o sujeito ético moral como aquele que tem consciência de suas ações, bem como as causas e fins de sua forma de agir. Essa noção vai ser utilizada tempos depois por Jesus em suas pregações que, assim como Sócrates, não dava respostas prontas, mas levava as pessoas a pensarem a partir dos ensinamentos contidos em suas parábolas, como também no episódio que envolveu Maria Madalena "atire a primeira pedra quem estiver sem pecado". Aristóteles também trará outra contribuição importante para a reflexão sobre a ética que é a vontade guiada pela razão. Pode-se resumir a ética dos antigos filósofos em:

a) racionalismo: a vida virtuosa é agir em conformidade com a razão;
b) naturalismo: vida virtuosa é agirem conformidade com a natureza e com a nossa natureza (ethos);
c) inseparabilidade entre ética e política: i.e., conduta dos indivíduo e os valores da sociedade. (CHAUÍ, p.342)

     Jesus retoma, em sua missão educativa, alguns pressupostos desses pensadores antigos, acrescentando-lhe uma outra noção de conduta ética quando afirma que se deve desejar ao próximo aquilo que se quer para si mesmo. Nasce também com o cristianismo a noção do dever: concepção moral que amplia o campo de ação ético, pois orienta para os indivíduos obrigações morais de uns para com os outros. Do ponto de vista espiritista, há, no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII (Sede Perfeitos), um tópico que discorre sobre o dever, no qual se afirma (espírito Lázaro) que "o dever é obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e, em seguida, para com os outros. O dever é lei da vida". Essa afirmação retoma a assertiva de Jesus no que tange à pratica da virtude, ou seja "o dever principia, para cada um de vós, exatamente no ponto em que ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade do vosso próximo; acaba no limite que não desejais ninguém transponha com relação a vós" (p.278).
     Em Princípios de uma nova Ética, 20o livro da coleção Pietro Ubaldi, o prof. Ubaldi, alicerçado nos princípios cristãos, sem desconsiderar a importância das diversidades sócio-históricas e psicológicas, bem como das contribuições dos antigos pensadores, avalia, no capítulo II, intitulado EVOLUÇÃO DA ÉTICA, as práticas sociais numa visão diacrônica, tendo como lastro o processo evolutivo do homem. Define a ética como "uma norma que dirige a nossa evolução" (p. 35), visando a perfeição de caráter. Não apresenta uma visão homogênea e etnocentrista de conduta humana, mas sim uma confluência de práticas que dependem do estado evolutivo de cada um e do contexto sócio-histórico do planeta, quando afirma que há "éticas progressivas e relativas de acordo com as verdades relativas conquistadas pelo ser em ascensão, proporcional ao conhecimento que o mesmo tem da lei de Deus" (p.35). Importante salientar que o processo evolutivo aqui, nessa concepção, é um "vir-a-ser", ou seja, um evento contínuo num universal transformismo.
     Obviamente que vida em sociedade não prescinde de ordenação para que possa garantir direitos e deveres individuais e coletivos; daí o surgimento da ciência do Direito. Entretanto, o Prof. Ubaldi transcende a concepção meramente planetária de norma social, apresentando o homem numa rede complexa de relação social, principalmente no que tange às idiossincrasias, demonstradas por dois biótipos - involuído e evoluído A partir dessa distinção, Pietro Ubaldi discorre a respeito da compreensão ética para cada um desses dois grandes grupos. Como a praxis ética é relativa, então, para esses biótipos também é relativa, "cada nível biológico corresponde uma ética relativa, moral de conduta, que se transforma, tão logo o ser ascende a um nível de evolução mais adiantado" (p.35).
    A nossa norma social (planetária), segundo o autor, é baseada no princípio da autoridade, traduzida em vencedor e vencido, seja em qualquer campo da atividade humana. Nesse contexto, os princípios éticos sofrem alterações a partir da percepção, dos paradigmas humanos. Para o involuído, sua noção de ética é perpassada pelo egoísmo, pela desconfiança, pela luta; é exterior, formal e de superfície. Para o evoluído, é interior, substancial, profunda, ligada às verdades que não deixam possibilidade do engano. Exemplificando: "o evoluído procura a honestidade, antes de tudo em si mesmo, para benefício dos outros. O involuído procura a honestidade, antes de tudo nos outros, para melhor explorá-la em seu proveito" (p.45). Assim, torna-se necessário"substituir o princípio fundamental do nível biológico (seleção do mais forte, individualista e separatista), por outro, colaboracionista, num estado orgânico" (p.45).
A partir do exposto, o prof. Pietro Ubaldi defende uma revolução (mudança) no campo da ética, mas não uma revolução superficial, aparente, e sim uma mudança "volumética", atingindo níveis profundos da vida humana - individual e coletiva. Afirma que a "renovação é grande, porque não se trata de mudar de roupa, passando de uma religião para outra, de um partido ou grupo humano a outro, ficando mais ou menos como antes e usando os mesmos métodos, mas trata-se de se renovar completamente, pensando com outra forma mental agindo, conforme uma ética diferente" (p.50).


REFERÊNCIAS:

BIERCE, Ambrose. (1999). O dicionário do Diabo. Trad. Carmen Seganfredo e A. S. Franckini. Porto Alegre: Mercado Aberto.

BLACKBURN, Simon. (1997). Dicionário Oxford de filosofia. Trad. Desidério Murcho et al.. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

CHAUÍ, Marilena.(1998). Convite à Filosofia. 10a. ed. São Paulo: Ática.

KARDEC, Allan. (1944). O Evangelho Segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

UBALDI, Pietro. (1988). Princípios de uma nova ética. Rio de Janeiro: Fundação Pietro Ubaldi.

VALLS, Álvaro L. M. (2004). O que é ética. São Paulo: Brasiliense (Coleção primeiros passos).


AUTORA

* Suani de Almeida Vasconcelos
Licenciada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS);
Pós-graduada Latu senso em Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS);
Pós-graduanda Strictu senso em Lingüística Aplicada (Análise do Discurso) pela Universidade Federal da Bahia (UFBA);
Vice-presidente do Centro Espírita Jesus de Nazaré, Feira de Santana, Ba.